quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pensar no futuro

 
Sete da comissão técnica se uniram para falar após o massacre por 7 a 1, mas não admitiram os erros do trabalho brasileiro (Ricardo Stuckert/CBF)

O Brasil perdeu, mas, principalmente, este modelo de futebol atrasado foi goleado. Ao demitir Mano Menezes, quando parecia que ele estava se acertando, a Confederação Brasileira de Futebol optou pela contratação de dois escudos, o técnico Luiz Felipe Scolari e o coordenador Carlos Alberto Parreira. A dupla havia comandado os dois últimos títulos mundiais da seleção brasileira, portanto, a CBF estaria fazendo tudo que é possível para vencer a Copa no Brasil. 

Antes da Copa das Confederações, apesar de muitas ressalvas, fiz um texto afirmando que aquele time poderia dar certo. Mesmo com o título e a grande atuação frente à Espanha, não foi uma trajetória linear e sem problemas. Os Canarinhos viveram altos e baixos e, muitas vezes, foram dependentes de chutões, jogadas individuais e da marcação pressão, que viveu o auge na final, mas não foi presente em toda a trajetória. Sem participação do meio-campo na criação das jogadas e, com momentos de problemas nas demais estratégias, o Brasil mostrou claramente seus problemas. 

A maior parte das falhas de um ano atrás foram repetidas durante o Mundial 2014 e foram potencializadas pela ótima exibição da Alemanha. Os doze meses não conseguiram solucionar os problemas. Mesmo sem se reunir muito, quando esteve junta, como na Copa do Mundo, o Brasil foi acusado de ter treinado e trabalhado pouco. A comissão técnica defendia a necessidade de descanso entre as partidas, algo que deve ser pensado mesmo. Porém, ao compararmos com outras seleções, vemos que isto não foi comum. A Holanda, após a batalha contra Costa Rica, em que só conseguiram vencer Keylor Navas, nos pênaltis, retornou ao Rio de Janeiro, não treinou de manhã, mas à tarde os jogadores foram para o campo. 

A ilusão de que estava tudo certo, não acabou com o 7 a 1, em que a Alemanha dominou amplamente o Brasil. Um dia após a derrota, Parreira e Felipão deram uma entrevista coletiva, na Granja Comary. Constrangimento resume o atendimento à imprensa, que teve momentos excepcionais do Coordenador Técnico da seleção, apoiado pelo comandante do time. “Não houve um erro. Tudo foi perfeito. Só não funcionou o resultado contra a Alemanha”. E, claro, amenizar a responsabilidade do pratão também ocorreu, o campeão Mundial de 1994 destacou que “a CBF não forma jogadores”. A Federação alemã de Futebol (DFP) forma. 

O exemplo alemão 


Alemanha campeã europeia sub-21 2009 cedeu seis jogadores para o título de 2014, todos eles titulares: Neuer, Boateng, Hummels, Höwedes, Khedira e Özil (Getty Images)

A matéria do Jornal inglês The Guardian, em maio de 2013, mostra o que acontece na Alemanha, pois este trabalho não chama atenção apenas no Brasil. O programa de desenvolvimento de talentos da DFB nasceu em 2003, com o objetivo de identificar futuros jogadores e, desde cedo, trabalhar as habilidades e o conhecimento tático neles. O resultado é visto na prática, pois, nos últimos anos, a Alemanha voltou a figurar entre as principais potencias do futebol mundial. 

 Sobre este trabalho de base, fiz um texto depois da Copa de 2010, tentando prever a Nationalelf para 2014. Mais da metade dos 23 convocados para o Brasil foram citados no texto. O bom índice de acerto não é mérito do blogueiro, tem muita relação com a continuidade do trabalho de Joachim Löw e o bom aproveitamento dos talentos da base. Seis campeões europeus sub-21, em 2009, vieram ao Brasil, na verdade, oito, pois Dejagah e Fabian Johnson também estiveram no Mundial, mas defendendo Irã e Estados Unidos, respectivamente. 

O diretor esportivo da Federação, Robin Dutt, que está no cargo desde agosto de 2012, explica que ajudar os clubes na formação de jogadores é ponto central desta evolução e é uma relação positiva para os dois lados. “Se nós ajudamos os clubes, eles nos ajudam, pois os atletas das nossas seleções – de base ou da equipe de Joachim Löw – vêm dos times”. Um exemplo da parceria é a obrigação dos clubes de 1ª e 2ª divisão, que têm que ter academias para formar jovens, com disputa a partir dos 12 anos. Para atingir o objetivo da norma, a DFB auxiliou financeiramente na montagem desta estrutura de base. 

Mas investir apenas na base não é a única contribuição da DFB ao futebol. Como apresentado no Linha de Passe, da ESPN Brasil, do dia 10 de julho, a Alemanha trabalhou para fortalecer a liga local. Ajudar o desenvolvimento dos jovens é um passo para isso. Por isso, hoje, a Bundesliga é uma das principais do planeta e isto contribuiu para o crescimento da Nationalelf. Portanto, há a necessidade de um trabalho mais complexo, não apenas investimento em um setor. 

Brasil quer se mexer? 

Jornalistas esportivos e, depois, o Bom Senso Futebol Clube por duas vezes foram recebidos pela presidência da república. Porém, até aqui, nada foi feito na prática (Roberto Stuckert Filho)

Ao contrário do que é realizado na Alemanha e, em outros países, onde o sucesso ainda não veio, o futebol brasileiro não parece querer evoluir. A CBF está deitada em berço esplêndido e recusa iniciativas para trabalhar o esporte no país. Parece que modernizar o que é feito aqui não é do interesse da entidade. Com o sucesso em campo, conquistado através do talento dos jogadores, que seguem surgindo aqui, nada ou muito pouco foi realizado para repensar o futebol, afinal, não era necessário, pois vencíamos.

O comando da CBF é o mesmo desde 1989, quando Ricardo Teixeira assumiu a presidência, durante o governo de José Sarney (PMDB). O domínio do ex-genro do ex-presidente da FIFA, João Havelange, portanto, resistiu aos presidentes Fernando Collor (PRN), Itamar Franco (PRN), Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Não citei Dilma Rousseff, pois foi no atual governo que Ricardo Teixeira se foi. Após muita pressão de mídia, população e do setor político, Ricardo Teixeira saiu, mas não mudou muita coisa. 

O sucessor foi o antigo apoiador da ditadura e vice-presidente mais velho da CBF, José Maria Marin, filiado ao PTB e com extensa carreira na política. Portanto, o perfil do comandante que pouco se importa com o futuro do futebol seguiu. O próximo presidente da entidade já está definido e será Marco Polo Del Nero, atual vice-presidente. Mesmo cuidando de algo de interesse público, a entidade é privada, por isso, em teoria, o governo não poderia intervir nela. Mas, como revelou Juca Kfouri, o STF já tem decisão que mostra o contrário

Portanto, interferir no comando da CBF é possível e, pelas recentes declarações de Dilma e do ministro do Esporte Aldo Rebelo (PC do B), este é o interesse do atual governo. Antes da Copa, a presidente recebeu uma série de jornalistas esportivos e disse que o grande legado do Mundial 2014 seria a melhoria do futebol praticado no Brasil. Na ocasião, ficou prometida uma reunião entre o Palácio do Planalto e o movimento Bom Senso Futebol Clube. Desde então, já foram duas conversas com o grupo de jogadores, que também tem especialistas em diversas áreas (administração, direito e etc), e a impressão de que uma participação do estado no comando do futebol brasileiro está próxima de acontecer. 

Por falar nisso, o BSFC é uma grande iniciativa de craques brasileiros que visam a melhoria do futebol como um todo, não só na elite. Porém, a blindagem da CBF impede que as ideias do grupo sejam trabalhadas para serem postas em prática. Um calendário mais justo, emprego por mais tempo para os jogadores fora das principais divisões, horários melhores para prática do futebol e a exigência do fair play financeiro para os clubes (como ocorre na Alemanha). Com estas medidas, com certeza, teríamos uma melhora sensível no futebol brasileiro: mais organização que refletiria em melhores desempenhos em campo e públicos maiores nos campeonatos locais, algo raro hoje. 

Esta sinalização governamental de intervenção na administradora do futebol brasileiro e, ao mesmo tempo, a conversa com o Bom Senso mostra consciência da necessidade de mudanças. Se elas forem as indicadas pelos jogadores, que não são ouvidos pela CBF, pode ser um caminho interessante para a modernização do atrasado futebol brasileiro. Porém falta deixar de ser vontade e se tornar uma prática. 

Voltando para dentro de campo 

Os Canarinhos, com Mano Menezes, pareciam ter um técnico que dialogava melhor com o que era realizado no futebol europeu, porém os resultados não vieram. Não custa lembrar que, na Copa América 2011, o Brasil caiu nas quartas de final e, em nenhum momento, conseguiu convencer. Na reta final do trabalho, como já dito, os Samba Boys melhoraram, mas novamente, a CBF influenciou negativamente o que é realizado dentro de campo, buscando uma dupla ultrapassada – e com nome – para comandar a equipe. 

Além das boas ideias, que, na reta final, estavam dando resultado. No período de Mano Menezes, algo muito interessante aconteceu na seleção e, se as mudanças aparecerem, pode virar uma marca dos Samba Boys. Como o repórter e colunista do site Terra, Dassler Marques escreveu, no antigo Olho Tático, de André Rocha, no Globoesporte.com, a seleção chegou a ter um esquema tático unificado do sub-17 ao time principal

A Bélgica, depois de duas copas fora, veio ao Brasil e chegou com bastante badalação, tendo a unificação do esquema tático como um dos pilares desta renovação, mas principalmente, a linearidade da forma de pensar futebol. Como Dassler escreveu no post sobre o Brasil, jogar no mesmo sistema não é o ponto centrale, sim, ter a mesma mentalidade. Pois assim, não limitamos o jogador da base a cumprir apenas uma função, mas, desde o princípio, fica claro o estilo de futebol que o jovem irá encontrar quando passar a atuar entre os adultos. Afinal, o objetivo de times e seleções de base é preparar os atletas para os times principais. 

A falácia da fraca geração brasileira 

O brasileiro do Hoffenheim, Roberto Firmino teve ótimos números na Europa e nem foi testado. Nenhum jogador verde e amarelo fez, em 37 jogos, 22 gols e 16 assistências.  (Alex Grimm)

Uma das justificativas utilizadas por mídia e comissão técnica, para o insucesso dos Canarinhos, é que a atual geração de jogadores verde e amarela é fraca. Para mim, uma grande mentira. Thiago Silva, Marcelo e Neymar são futebolistas da elite do futebol mundial. Além deles, Júlio César, Maicon e Daniel Alves já fizeram parte do grupo de maiores craques do planeta. Portanto, apenas seis jogadores que podem – ou já puderam – ser considerados especiais Mas, a maior parte dos outros convocados, estão ou estiveram em grandes clubes e jogaram em alto nível, no futebol europeu. Um ou outro jogador, talvez Jô e Henrique ainda não tiveram – e nem deverão ter – um momento de futebolista top mundial. 

Além do elenco de 23 escolhidos para representar o Brasil em casa, vários jogadores de bom nível ficaram de fora, por exemplo, Diego Alves, Rafinha, Miranda, Alex, Filipe Luís, Lucas Leiva, Felipe Melo, Fernando Reges, Diego Ribas, Philippe Coutinho, Lucas Moura, Roberto Firmino e Jonas. E é bom lembrar, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Robinho, Nilmar, Luís Fabiano e Adriano são integrantes da geração 2014, poderiam tranquilamente estarem presentes no Mundial disputado em casa, mas, por escolhas erradas e queda de nível, o sexteto não chegou à disputa. 

Entre os convocados para a Copa e os outros citados, muitos poderão estar em 2018 e serão mesclados com outros jogadores jovens que já começaram a se destacar. Três bons goleiros estão na Serie A da Itália, Gabriel (Milan), Rafael Cabral (Napoli) e Neto (Fiorentina). Na defesa, Danilo (Porto), Rafael (Manchester United), Juan Jesus (Internazionale), Dória (Botafogo), Marquinhos (PSG), Alex Telles (Galatasaray), Wendell (Bayer Leverkusen) Alex Sandro (Porto). No meio, Fernando (Shakhtar Donetsk), Casemiro (Real Madrid), Rômulo (Spartak Moscou), Lucas Silva (Cruzeiro), Fred (Shakhtar Donetsk), Rafinha (Barcelona), Paulo Henrique Ganso (São Paulo) e Douglas Costa (Shakhtar Donetsk). No ataque, Lucas Piazon (Chelsea), Wellington Nem (Shakhtar Donetsk) e Gabriel Barbosa (Santos). Tantos outros podiam ter citados, mas, para mim, vendo de hoje, esses são os destaques para o futuro mais próximo dos Samba Boys

Pode ser que nem todos os citados consigam chegar a – ou retomar – um nível altíssimo de futebol, mas está claro que há talento e muitos deles já tiveram passagens pela seleção. Esses atletas mais jovens, se forem bem trabalhados e mesclados com alguns dos atuais jogadores, poderão trazer bons frutos para o Brasil. Alguns, inclusive, têm idade para disputar os Jogos Olímpicos de 2016, em casa. E, com a saída de membros do grupo de 2014, muitos deles devem ter espaço durante toda a preparação. 

Portanto, dizer que o Brasil não produz mais tantos craques, pode até ser verdade (muito por culpa de fatores organizacionais), mas afirmar que o talento por aqui acabou é uma grande mentira. O caminho para voltar a brigar pela hegemonia do futebol é longo e, para isso, escolher um bom comandante é um dos primeiros passos a ser dado. 

Quem poderá liderar? 

Nos últimos anos, ninguém se destacou tanto como Tite. O ex-técnico do Corinthians mostra conhecimento tático e entendimento do que se faz no mundo, como conceito de futebol. Depois de encerrar a trajetória vitoriosa na equipe paulistana, o gaúcho foi presença constante em jogos de Liga dos Campeões e campeonatos europeus. Apesar de ótimo trabalho, Tite não se acomodou e foi atrás de mais informações para melhorar. Por isso, seria a minha escolha como figura central deste novo ciclo. 

Porém, com a atual cúpula da CBF, parece improvável a escolha de uma pessoa atualizada e que possa tomar as rédeas de todo o trabalho da seleção brasileira. Como o comentarista da ESPN Brasil, Mauro Cezar Pereira falou: “se for para eles ficarem (dirigentes da CBF), que seja como uma rainha da Inglaterra, que tem gente abaixo com o controle das ações a serem tomadas”. É bom deixar claro, nem eu, nem o MCP queremos que essa turma siga no comando. 

Mas, por mais que não façam nada pela melhora dos Canarinhos e, muito menos, pelo futebol verde e amarelo em geral, os dirigentes não mostram interesse em abrir mão do protagonismo do comando dos Samba Boys. Portanto, há claramente um nome para o novo ciclo. Porém, com o contexto atual, pode vir qualquer grande treinador do futebol mundial que não dará certo. Por isso, a intervenção na Confederação Brasileira de Futebol e a implementação das ideias do Bom Senso Futebol Clube é o caminho e se mostra urgente. 

Palpite dos 23 

Para finalizar, aquele chute clássico, que muitos jornais e sites ousam fazer: quem serão os 23 convocados da Copa do Mundo da Rússia? Goleiros: Diego Alves, Neto e Rafael Cabral. Laterais-direitos: Danilo e Rafael. Zagueiros: David Luiz, Thiago Silva, Marquinhos e Juan Jesus. Laterais-esquerdos: Marcelo e Alex Sandro. Volantes: Fernando Reges, Casemiro e Paulinho. Meias e Meias-atacantes: Lucas Moura, Oscar, Neymar, Roberto Firmino, Philippe Coutinho, Rafinha e Paulo Henrique Ganso. Atacantes: Lucas Piazon e Gabiel Barbosa.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Seleção da Copa do Mundo 2014

Com o final do Mundial é hora de escolher os onze melhores, o craque e o grande comandante. A maior parte dos 12 escolhidos vieram dos quatro semifinalistas e, entre eles, está o principal desempenho. Apesar do esquema com três zagueiros ter brilhado durante a Copa, escolhi o 4-3-3, pois foi a melhor alternativa para receber os onze escolhidos. Vale destacar que as estatísticas citadas no texto estão disponíveis no site da FIFA. 

Goleiro: Keylor Navas (Costa Rica) 

 Keylor Navas pegou pênalti, mas fez muito mais (Jeff Gross/Getty Images)

Keylor Navas chegou ao Mundial 2014 como melhor goleiro do Campeonato Espanhol 2013-14. O camisa um dos Ticos foi um dos grandes responsáveis pela classificação improvável da Costa Rica, no grupo D, que tinha Itália, Inglaterra e Uruguai. Na segunda fase, ademais de salvar com bola rolando, pegou um pênalti e classificou a equipe, contra a Grécia. Depois, nas quartas de final, o goleiro do Levante evitou que a Holanda se classificasse antes dos pênaltis, onde, desta vez, Navas não brilhou. Mesmo parando na terceira etapa da Copa, o camisa um costa-riquenho fez 21 defesas e muitas delas impostíssimas para o bom desempenho dos Ticos, no Brasil. 

Lateral-direito: Philipp Lahm (Alemanha) 

O melhor lateral do mundo e um dos melhores de todos os tempos se tornou volante, nesta temporada. Na Copa do Mundo, foi no meio-campo que começou a trajetória, por isso, se concretizou como melhor passador da competição: acertou 562 passes dos 651 que tentou (índice de 86%). Lahm foi colocado ali para dar uma saída de bola mais limpa à Alemanha e conseguiu. Porém, a Nationalelf sentiu falta de laterais puros, e Löw acabou recolocando o jogador do Bayern de Munique na posição de origem. O lateral deu ofensividade pela direita, acertou seis cruzamentos e foi uma importante saída para a Alemanha, que antes da realocação do capitão, não contava com os avanços pelos lados. Ir bem à frente não significou deixar espaço nas costas, pois correu uma média de 11,5 km por partida, o quarto maior número no Mundial.

Zagueiro: Mats Hummels (Alemanha) 

 Hummels mereceu palmas pelo desempenho, sendo decisivo na defesa e no ataque (Martin Rose/Getty Images)

O melhor zagueiro alemão chegou ao Mundial cercado por dúvidas, afinal, a temporada teve lesões e desempenho abaixo do habitual. Na Copa do Mundo, Hummels deixou isso de lado e mereceu estar na seleção. O camisa cinco foi o principal nome da linha defensiva alemã, com 47 bolas recuperadas, cinco bloqueios e cinco desarmes completos. Em alguns momentos, parecia impossível passar pelo zagueiro do Borussia Dortmund, que mostrou força, velocidade e muita técnica na defesa. Mas ofensivamente, Hummels também deixou um bom desempenho, ao marcar dois gols de cabeça, um deles garantiu a vitória da Alemanha, nas quartas de final, frente à França. 

Zagueiro: Ezequiel Garay (Argentina) 

O grande ponto de interrogação da Argentina era a defesa e foi justamente o setor que se destacou mais durante o Mundial. Um dos principais responsáveis por isso foi o zagueiro que está se transferindo do Benfica para o Zenit. Ao lado de Zabaleta, Garay foi o único titular da linha defensiva em todas jogos. Pelo alto, foi difícil vencê-lo e, pelo chão, foram 52 bolas recuperadas, segundo maior número entre os jogadores da Copa do Mundo. Portanto, o camisa dois, que não é um dos zagueiros mais técnicos do planeta, conseguiu marcar um desempenho muito bom, que foi reflexo da sua raça, evidente nos quase 11 km percorridos por partida. 

Lateral-esquerdo: Daley Blind (Holanda) 

Ao longo da Copa do Mundo, Blind foi ala-esquerdo, zagueiro e, até, volante. Apesar de não ficar restrito à função em que está sendo escalado, conseguiu ir bem em qualquer um dos setores. A Holanda jogou com uma linha de três zagueiros, por isso, os alas tiveram bastante espaço para atacar e o jogador do Ajax aproveitou bastante isto. Foram duas assistências, um gol e bom desempenho nos passes: arriscou 428 e acertou 351 (82%). Além disso, realizou seis desarmes, participando bem do sistema defensivo. 

Volante: Javier Mascherano (Argentina)  

 Mascherano foi o líder argentino em campo e, com este bloqueio, foi decisivo para colocar a equipe na final (Julian Finney/Getty Images)

El Jefecito abriu mão da braçadeira de capitão e entregou ela ao craque Messi, porém, dentro de campo, todos sabem quem manda. Mascherano foi a voz de Sabella nas quatro linhas e o principal protetor da tão criticada defesa albiceleste, que foi muito bem. Na parte defensiva, um monstro com destaque para os dez desarmes, as incríveis 49 bolas recuperadas e seis bloqueios, um deles que garantiu a disputa de pênalti contra a Holanda e, consequentemente, a classificação à final. Mas também teve participação na construção do jogo. Mascherano foi ótimo nos passes e terminou como terceiro melhor passador do campeonato: 626 tentados e 536 completados (86% de acertos). Ele era o responsável pela saída de bola argentina, recuando entre os zagueiros para dar o primeiro passe, seja curto ou longo, sempre teve qualidade. 

Meia-central: Toni Kroos (Alemanha) 

 No meio dos craques alemães, Kroos foi o que mais brilhou, ditando o ritmo dos jogos (Jamie McDonald-Getty Images)

Ao longo da Copa, Toni Kroos foi o craque mais destacado, no meio do elenco estrelado da Alemanha. Com Schweinsteiger crescendo aos poucos, o camisa 18 foi o responsável por ditar o ritmo do toque de bola da Nationalelf. Por isso, o jogador do Bayern de Munique foi o segundo melhor passador do Mundial, com 633 passes tentados e 537 completados (bom índice de 85%). Além de ser o meio-campista líder, nesta Copa, Kroos marcou duas vezes, ambas na goleada sobre o Brasil, quando executou um recital, no Mineirão. Por ser figura central da proposição de jogo alemã, o camisa 18 terminou o Mundial 2014 como um dos líderes em assistências, ao dar quatro passes decisivos. 

Meia-central: Bastian Schweinsteiger (Alemanha) 

A evolução de um jogador. Schweinsteiger não começou a Copa do Mundo como titular, estava se recuperando de lesão, mas, aos poucos, foi aparecendo e crescendo. O pico do camisa sete foi visto na final, quando deixou em campo uma atuação enorme, com ares épicos. Mesmo tendo atuado apenas 505 minutos, o jogador do Bayern de Munique foi o quarto a completar mais passes, com 467 tentados e 412 completados, índice de 88% de acertos, o melhor no top 8 da estatística. Schweinsteiger, assim como Kroos, é um símbolo de volante moderno e polivalente, aquele que marca e constrói desde o campo defensivo, tipo de jogador provou sua importância nesta Copa. 

Ponta-direita e craque: Arjen Robben (Holanda) 

 Robben foi o melhor jogador da Copa do Mundo e impulsionou a Holanda ao terceiro lugar (Paul Gilham/Getty Images)

O esquema com três defensores da Oranje visava liberdade para Sneijder, Van Persie e Robben. O camisa onze foi o que melhor aproveitou esta tranquilidade para desequilibrar em favor da equipe. O jogador do Bayern de Munique marcou três vezes (todas na primeira fase) e cedeu uma assistência. Mas a importância dele para o esquema de Van Gaal não é refletida pelos números. Durante todo o Mundial, quando a bola chegava no carequinha, a Holanda sabia que boas coisas poderiam ocorrer, com velocidade, dribles imprevisíveis, visão de jogo privilegiada e os chutes com a canhota especial. Apesar de bons desempenhos de outros companheiros, ficou claro, se Robben não fosse bem, a Holanda não teria chegado tão próxima da final. 

Ponta-esquerda: James Rodríguez (Colômbia) 

 James quer saber: "alguém jogou mais que eu no Mundial?" (Warren Little/Getty Images)

Sem Falcao García, muitos acharam que a Colômbia havia ficado sem craque, mas, desde o princípio, o camisa dez mostrou o engano. Com apenas 22 anos, o jogador do Monaco apresentou um repertório incrivelmente profundo. O artilheiro da Copa do Mundo balançou as redes seis vezes: quatro com o pé esquerdo, uma com a destra e outra de cabeça – dois deles foram golaços. Porém não foram apenas gols, fez também duas assistências, portanto, participou diretamente de oito dos 12 gols cafeteros. Além disso, James Rodríguez mostrou ser um meia-atacante completo, bom passador, veloz, bastante habilidoso e com visão de jogo apurada. Faltou pouco para o dez colombiano ser o melhor da Copa, talvez uma campanha um pouco mais longa da seleção dele. 

Atacante: Thomas Müller (Alemanha) 

Mais uma Copa com sete jogos e cinco gols. Aos 24 anos, o camisa 13 já está empatado entre os oito maiores artilheiros da história dos mundiais. Thomas Müller alia técnica, velocidade e raça como poucos. Seja como falso centroavante ou meia-atacante, o jogador do Bayern de Munique deixou no Brasil ótimas atuações e participações decisivas pela sua seleção. Vice-artilheiro com cinco gols, também cedeu três assistências e ainda foi quem mais correu na Copa do Mundo, com média de 12 km por partida. Sem se omitir em nenhum momento e participando de vários setores do jogo, Müller foi uma das marcas da conquista da Alemanha. 

Técnico: Louis van Gaal (Holanda)  

 Van Gaal fez de tudo para que suas principais estrelas jogassem bem e deu certo (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

Habituada a jogar no 4-3-3, às vesperas do início da Copa do Mundo 2014, por conta da lesão de Strootman, a Holanda mudou taticamente por iniciativa do técnico. O 3-4-1-2 entrou em ação para dar liberdade para os jogadores mais especiais, Sneijder, Robben e Van Persie. Se o camisa onze foi a estrela que brilhou mais fortemente e mais constantemente, os outros dois também tiveram momentos que tiraram bom proveito desta tranquilidade dada pelo técnico. A mudança deu resultado, pois, com uma geração mais fraca que as anteriores, a Oranje conseguiu o terceiro posto, com boas vitórias sobre Espanha (5 a 1) e Brasil (3 a 0) e faltou muito pouco para ser finalista. Além de mudar e conseguir ir longe, Van Gaal também não ficou preso ao esquema com três zagueiros e, quando foi necessário, mudou taticamente e chegou a voltar ao 4-3-3. 


Vários jogadores que tiveram bons desempenhos ficaram de fora, mas alguns deles ficaram perto de estarem entre os meus onze. A lista por ordem de posição: Neuer (Alemanha), Romero (Argentina), Howard (Estados Unidos), Fabian Johnson (Estados Unidos), Vlaar (Holanda), Giancarlo González (Costa Rica), Thiago Silva (Brasil), Marcos Rojo (Argentina), Cuadrado (Colômbia), Ángel Di María (Argentina) e Messi (Argentina). E o técnico Jorge Luis Pinto (Costa Rica).

domingo, 13 de julho de 2014

Copa do Mundo – Dia 31

O título da equipe completa

 Levantar a taça, o momento foi esperado por 24 anos pelos alemães e muito comemorado, com muita justiça (Ricardo Matsukawa/Terra)

As escolhas foram para campo e, apesar da tensão comum à uma final, a partida foi muito boa e de alto nível técnico. O Maracanã com 74.738 espectadores foi o grande palco perfeito. A Alemanha repetiu o jogo de posse, com verticalidade, que é a sua marca já a um bom tempo. Os argentinos vieram focados nos contra-ataques, pois, pelo o que haviam visto anteriormente, sabiam que dar espaço ao meio-campo da Nationalelf seria fatal. 

A alternativa tática de Sabella foi o 4-4-1-1, com Messi atrás de Higuaín. Ao conquistar a posse de bola, a Albiceleste tinha os avanços de Enzo Pérez pela esquerda e, principalmente, Lavezzi na direita. Na Alemanha, Löw repetiu o 4-3-3 (4-1-4-1), com Schweinsteiger ficando um pouco mais preso na marcação. Com a lesão de Khedira no aquecimento, Kramer foi escalado no meio com Kroos. 

 Com esta configuração inicial, a Albiceleste teve maior êxito na execução da proposta de jogo. A Alemanha tinha o domínio da bola (terminou com 60%), mas não conseguia penetrar na retaguarda adversária. A dupla Biglia e Mascherano tinha grande responsabilidade nisso, pois, novamente, transpiravam muito e tentavam cobrir todos os espaços do meio. Pelos lados, a contribuição de Enzo Pérez e Lavezzi também era importante. 

Se a lesão de Khedira no aquecimento piorou o time, quando Kramer teve que sair, a Mannschaft melhorou. Löw ousou e colocou Schürrle em campo e passou a ser mais ofensivo. Quase um 4-2-3-1, com o recém-entrado pela esquerda, Özil pelo centro e Müller à direita, com Kroos e Schweinsteiger sendo os volantes. Assim, a Alemanha cresceu e chegou a exigir participações de Romero, que, mesmo com desconfianças, foi muito bem em toda a Copa do Mundo.

Porém, no primeiro tempo, as grandes chances foram albicelestes. Na mais clara oportunidade, o melhor alemão na Copa, Kroos errou e Higuaín ficou frente à frente com Neuer. El Pipita desperdiçou o que poderia ser a bola do jogo, ao chutar para fora. A lateral-esquerda, grande ponto fraco da Alemanha, foi explorada a exaustão. Lavezzi jogava por ali e Messi, muitas vezes, deixava o centro e trabalhava pelo setor de Höwedes. Só não foi pior, porque Boateng fez partida soberba e, mais uma vez, Hummels teve bom desempenho. 

Mesmo com a estratégia dando certo, Sabella abriu mão do esquema e buscou atacar mais os europeus. Apesar de péssimo Mundial, Agüero veio no lugar de Lavezzi e a Argentina passou a jogar no 4-3-1-2, com Pérez, Mascherano e Biglia dando suporte ao enganche Messi. No início da segunda etapa, a Albiceleste teve domínio maior do jogo, assustou muito a defesa alemã e Neuer chegou a ser bem exigido. Após sofrer sustos com o bom reinício dos argentinos, a Mannschaft equilibrou. 

A Alemanha criou boas chances, com subidas de Lahm pela direita e a movimentação de Özil, Thomas Müller e Schürrle. Mas a marca da melhora alemã era a transpiração de Schweinsteiger, o clássico volante fazia partida enorme defensivamente e, com os passes, iniciava as jogadas ofensivas da Nationalelf. Porém, apesar das duas equipes buscarem o gol, os bons goleiros Neuer e Romero não tinham muito trabalho. A Argentina não chutou nenhuma bola no alvo e a Alemanha conseguiu apenas cinco arremates, em 120 minutos. 

Por isso, mesmo com a maior abertura das equipes, o jogo foi para a prorrogação, quando o cansaço poderia pesar. A Alemanha teve um dia a mais de descanso e passeou na semifinal, enquanto os argentinos protagonizaram uma batalha contra a Oranje, decidida apenas nos pênaltis. Ademais de Schweinsteiger, que se sacrificava para seguir em campo, a Nationalelf traduziu esta vantagem nos 30 minutos derradeiros. A Argentina não conseguiu assustar e a impressão era de que, se tivesse um vencedor até os 120 minutos, seria a equipe europeia. 

 Como a imagem denota, Schweinsteiger foi épico. Corte sob o olho, uniforme completamente sujo e o rosto externando cansaço (AP Photo)

Schweinsteiger foi o símbolo desta vitória. Na prorrogação, apanhou bastante, chegou a ganhar um corte sob o olho e quase foi substituído. Ele lutou e conseguiu seguir em campo. Mas a jogada do gol do título veio com Schürrle, reserva importantíssimo durante toda a campanha. O camisa nove disparou pela ponta esquerda e cruzou na área. Götze recebeu nas costas de Demichelis, matou no peito e, de canhota, marcou o 1 a 0, depois de ter ouvido de Joachim Löw: “mostre para o mundo que você é melhor que o Messi e que você pode decidir o Mundial”. De reserva para reserva e o único gol foi o do título, o mais importante da Nationalelf em 24 anos. A Argentina ainda tentou, porém não conseguiu buscar o empate. Tetracampeonato conquistado (1954, 1974, 1990 e 2014). 

Ganhou o melhor trabalho, a seleção mais coesa e o time mais carismático. Um projeto a longo prazo que revelou muitos talentos e deve seguir dando frutos para a Alemanha. Foram 18 gols marcados e quatro gols sofridos em sete jogos. A Mannschaft foi a equipe do toque de bola, com 5084 tentados e 4157 completados (82%). Além disso, teve bons números defensivos: 91 desarmes completados e Neuer executou 24 defesas. 

A equipe completa sem um craque absoluto, mas absoluta no Mundial. Desde o princípio a Alemanha era a principal favorita e, ao longo das sete partidas, confirmou isso, com louvor, jogando muito e crescendo durante a Copa de 2014. O título está em ótimas mãos, nas mãos dos alemães.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Copa do Mundo – Dia 28

Massacre alemão e humilhação verde e amarela

 Kroos foi a estrela do jogo, mas foi a atuação coletiva que liderou a Alemanha ao 7 a 1 (Jamie McDonald/Getty Images)

Alemanha e Brasil seria um jogo equilibrado, provavelmente, com um ligeiro favoritismo dos europeus. Sem os dois principais jogadores verde e amarelos, Thiago Silva e Neymar, a força alemã se destacava mais. Porém, dentro das quatro linhas, o ligeiro se tornou imenso e, ao final, foi constrangedor para os Samba Boys. Para substituir o craque, Luiz Felipe Scolari surpreendeu e colocou Bernard entre os onze iniciais, como ponta-direita no 4-2-3-1. Do outro lado, de certa forma, Joachim Löw surpreendeu e colocou em campo o 4-3-3, pois colocou Klose como centroavante. O esquema da Mannschaft também pode ser visto por um 4-1-4-1, pois Schweinsteiger fica mais preso, com Kroos e Khedira tendo liberdade para apoiar à frente. 

Assim, no Mineirão, a Alemanha protagonizou um recital, um massacre mesmo. O meio-campo foi a área do massacre, os cinco europeus controlaram totalmente o quinteto verde e amarelo, que, muitas vezes, tinha apenas três jogadores, pois Hulk e Bernard não conseguiram colaborar com a marcação. Mas, o primeiro gol da Nationalelf, não veio com vitória no meio-campo. Um escanteio, conseguido após um contra-ataque foi bem batido por Kroos. Depois da falha grosseira da zaga, Thomas Müller apareceu livre e marcou. Dos 22 aos 28 minutos, um massacre completo. 

Com pressão alta, superioridade numérica em todas as disputas de bola e um jogo muito vertical (chegou a ter menos posse de bola que o Brasil), a Alemanha marcou quatro vezes, no período. Khedira era uma das chaves deste jogo, marcava muito à frente e parecia pronto para fazer a composição defensiva, caso fosse necessário. O resultado é que os Canarinhos só utilizavam a alternativa do chutão e, assim, a redonda logo voltava aos alemães, que conseguiam construir o jogo, com um jogo bem direto, diferente daquilo que havia apresentado nas partidas anteriores. 

Klose quebrou o recorde de Ronaldo, o craque de jogo e um dos melhores alemães na Copa, Kroos fez dois e Khedira marcou o quinto. O Brasil estava no chão, não havia reação, a técnica alemã venceu. A Mannschaft caminharia para a final e os Samba Boys estavam próximo da pior derrota em copas. Luiz Felipe Scolari tentou igualar o jogo: sacou Fernandinho e Hulk, ambos em dia péssimo, e colocou Ramires e Paulinho. Por outro lado, claramente os alemães desaceleraram. 

Por isso, o Brasil chegou a viver bons momentos. Mas aí, uma qualidade da Nationalelf, que ainda não havia sido necessária, apareceu. Um dos ótimos goleiros deste Mundial Neuer fez algumas boas defesas e evitou que os verde e amarelos marcassem dois gols, logo no reinício da partida. Se o ritmo dos titulares já não era o mesmo, Schürrle entrou no lugar de Klose, que deixou o campo com o recorde e sob aplausos, e veio para cravar os últimos golpes na seleção de Luiz Felipe Scolari. 

As defesas de Neuer deixaram o Brasil mais entregue. A posse passou a ser controlada pela Alemanha, que, além de ter o controle territorial, buscava mais gols. Ao final da partida, Schweinsteiger afirmou: “Mas eu gostaria de me desculpar com o Brasil. Não esperávamos um placar desses. Tentamos ser respeitosos jogando futebol e fazendo gols. Para nós essa Copa é um sonho. Estamos gostando muito do povo brasileiro, e queria dizer que a seleção brasileira fez grande papel no torneio”. O que foi falado por um dos líderes do grupo, Schürrle mostrou na prática e marcou outras duas vezes. 7 a 0. 

Oscar fez aquilo que chamamos de gol de honra, mas não trouxe nenhuma horna. 7 a 1 e nada mais a declarar. Uma grande atuação alemã frente à uma apática seleção brasileira, que precisa se reinventar, neste sentido, prometo um texto bem completo em breve. Provavelmente, após a Copa. Para a Alemanha, que não vinha massacrando, a vitória categórica na semifinal apresenta a força da equipe para ganhar o tetra, depois de 24 anos. Do outro lado, seja Holanda ou Argentina, o favoritismo será da Nationalelf, porém, mais uma vez, o jogo se apresentará como um grande desafio, que pode se tornar algo fácil, como aconteceu contra o Brasil, graças à qualidade do grupo de Löw.

sábado, 5 de julho de 2014

Copa do Mundo – Dia 24

A Redenção do Artilheiro 

 Higuaín bateu no peito e chamou a responsabilidade, em mais uma partida difícil para a Argentina (Matthias Hangst/Getty Images)

A Argentina segue passando de fase, mesmo sem convencer. Mas, contra a Bélgica, a Albiceleste conseguiu uma exibição correta, uma das melhores no Mundial. Para conseguir jogar bem, Sabella mexeu e armou um 4-2-3-1, com a entrada de Biglia na composição com Mascherano na volância. Wilmots manteve o 4-1-4-1, mas optou por ter Mirallas entre os onze iniciais. 

Frente aos Diabos Vermelhos, os argentinos conseguiram recuperar Higuaín, que fazia Mundial abaixo daquilo que poderia entregar. O camisa nove até colaborava na movimentação sem bola e abria espaços para os companheiros. Mas centroavante vive de gols e o argentino ainda não havia balançado as redes. Na verdade, El Pipita não conseguia finalizações, ao todo, nas quatro partidas anteriores, apenas sete chutes, em 330 minutos em campo. Desta vez, uma no gol, outra ao lado e mais uma bloqueada. Para melhorar, a que foi no alvo, balançou as redes. No início da partida, uma bola espirou na zaga e se ofereceu na meia-lua, em chute de rara felicidade, Higuaín marcou o 1 a 0. 

Abrir o placar cedo, tranquilizou o jogo albiceleste e obrigou a Bélgica a buscar mais o ataque. Porém, mesmo terminando os 90 minutos com posse de bola maior (54.3%), não conseguia assustar o goleiro. Durante a partida, os Diabos Vermelhos finalizaram dez vezes: apenas uma no alvo, três interceptadas e seis para fora. Com esta pontaria, não daria para vencer a Argentina, que não pressionavam o rival, mas, quando a bola chegava em Messi, era sempre um risco para os belgas. 

Wilmots mexeu, colocou Mertens e Lukaku. Sem resultado, ousou e errou ao tirar o craque Hazard para colocar o ineficiente Chadli. Para confirmar a falta de ideias do técnico belga, no final, a seleção teve Van Buyten como centroavante, por, ao menos, uns 15/20 minutos. Faltou repertório no final, os Diabos Vermelhos apenas ficaram cruzando bolas na área (ao todo, foram 23 cruzamentos) e, como mostramos os números acima, a estratégia não resultou em perigo para Romero. 

Com o apito final, teve choro dos dois lados. Os belgas, que atingiram a fase imaginada, se frustraram, pois, provavelmente, esperavam melhor desempenho. A ótima geração do país não encantou na Copa, mas, depois de dois mundiais ausente, voltar e já chegar às quartas de final é uma boa marca. No lado argentino, o decisivo Higuaín, que teve a melhor atuação dele na competição, chorou muito. Na entrevista pós-jogo, El Pipita destacou: “O jejum não me incomodava, o que importa é ir avançando, agora, devemos seguir pensando partida a partida”. As lágrimas também poderiam ser de Sabella, que, por lesão, perdeu Di María, um dos seus jogadores mais importantes, para o restante da Copa do Mundo.

Herói improvável

Hoje, Robben deixou o protagonismo para Krul, que entrou para pegar pênaltis e pegou dois (Michael Steele/Getty Images)

Em Salvador, Holanda e Costa Rica também seria o confronto dos melhores técnicos da Copa do Mundo, Louis van Gaal e Jorge Luis Pinto. Para enfrentar a melhor defesa do Mundial 2014, o técnico holandês não teve dúvidas e, mais uma vez, mudou a forma de jogar. Veio o 3-4-2-1, com Kuyt, Wijnaldum, Sneijder e Blind formando a segunda linha, portanto, nenhum marcador clássico no centro do campo. À frente, Robben e Depay davam suporte à Van Persie. O comandante dos Ticos não mexeu na estrutura e manteve o 3-4-2-1 (muitas vezes, formando uma linha de cinco atrás), mas focou ainda mais na marcação.  

O planejado pelos treinadores se refletiu em campo. A Oranje dominou completamente a partida, durante todos os 120 minutos, sempre mais de 60% de posse de bola. Com um dos melhores da Copa, Robben fazendo boa partida, o controle do jogo se tornou chances e muitas oportunidades de gol. O problema foi a fraca exibição de Van Persie, pois, sem o jogador terminal bem, as finalizações normalmente vinham de fora da área. Além do camisa 11, Sneijder também tinha boa atuação e sempre conseguia descolar um passe interessante para algum companheiro. De 85 toques tentados, o número dez acertou 70, sendo que 17 deles foram no último terço.  

Não por acaso, a defesa da Costa Rica é a menos vazada da Copa, com apenas dois gols sofridos. O goleiro Keylor Navas mostrou porque é o melhor do Mundial e fez oito defesas, além de contar com a trave em dois momentos, em arremates de Sneijder, que fez sua melhor partida na competição. Eventualmente, os Ticos chegavam em contra-ataques. O homem mais avançado, Joel Campbell recebeu apenas cinco passes no último terço do campo, nenhum deles dentro da área.

Apesar de tentar de todos as formas, a bola não entrou. E, na reta final do jogo, durante a prorrogação, o massacre holandês foi ainda maior. Porém, mesmo assim, o jogo terminou 0 a 0. Antes do apito final, mais uma vez, Louis van Gaal participou da partida de forma decisiva. O técnico tinha um trunfo no banco: o goleiro Krul, de 1,93m, que, durante toda a preparação para a Copa, sabia que, se houvesse decisão por pênaltis, entraria. O desempenho do goleiro do Newcastle não é fascinante em penais, pois, dos últimos 20 batidos contra ele, havia parado apenas dois. Porém, colocá-lo em campo foi uma estratégia do técnico holandês e do treinador de goleiros, Frans Hoek para criar um fato novo, tendo um jogador preparado quase como o especialista para a situação.  

A estratégia deu muito certo. Nas cinco cobranças dos Ticos, Krul acertou o canto de todas e igualou o desempenho que teve nas 20 cobranças anteriores. Com as duas defesas, o “especialista” garantiu a vitória holandesa, pois seus compatriotas acertaram todas as batidas, sem dar chances para o ótimo Keylor Navas. A troca de goleiros, que deu resultado, também causou polêmica. O titular Cilessen reclamou de sair, mas, segundo os especialistas em futebol holandês, depois da partida, pediu desculpas e reconheceu que errou ao chiar.  

O 4 a 3 fez justiça ao que foi o jogo, pois a Oranje não merecia perder, massacrou a Costa Rica. Porém, como disse Keylor Navas, ao final da partida, os Ticos devem voltar para casa “com muito orgulho”. No mesmo sentido foi a fala do técnico Jorge Luis Pinto, que foi muito bem no Mundial, levando a equipe às quartas de final, eliminando Itália e Inglaterra. No lado vencedor, fica a clara noção de que Van Gaal conhece muito bem seus 23 convocados (no Brasil, 21 já entraram em campo) e sabe as opções que eles oferecem ao time. Para encarar a Argentina, não acredito que o técnico repetirá a escalação, pois tentará dar mais poder de marcação ao centro de campo da Holanda.

Copa do Mundo – Dia 23

Venceu bem

O craque do Mundial vai embora com as lágrimas, e, o melhor da partida, o consola e avança (Laurence Griffiths/Getty Images)

Desde o princípio, chamou a atenção a inatividade de Carlos Velasco Carballo, que parecia proibido de distribuir cartões. Brasileiros e colombianos aproveitaram esta espécie de autorização e fizeram um jogo bastante físico. Em muitos momentos, os jogadores chegaram a extrapolar, beirando à violência. Um exemplo claro foi Fernandinho, que chegou a fazer faltas duras seguidamente e não viu nem o amarelo.

Em campo, os Samba Boys vieram com algumas diferenças. O 4-2-3-1 se aproximou de um 4-1-4-1, tendo Fernandinho como 1° volante e, à frente, Oscar, Paulinho (por conta da suspensão de Luiz Gustavo, voltou ao time), Neymar e Hulk – os dois últimos jogando mais próximos do centroavante Fred. Além disso, Luiz Felipe Scolari surpreendeu positivamente, sacando Daniel Alves e colocando Maicon. José Pékerman manteve o 4-2-3-1, mas optou por Ibarbo como ponta-esquerda, tendo James pelo centro e Cuadrado pela direita. Na volância, Guarín entrou no lugar de Aguilar, portanto, os cafeteros deixaram de ter dois volantes de mais marcação, buscando ter mais posse de bola e mais domínio do meio-campo.

Com as mudanças e o crescimento do desempenho dos jogadores, os Samba Boys cresceram, passaram a ter melhor saída de bola, pois os laterais, a dupla de volantes e até os meias ajudaram mais neste trabalho. O Brasil também conseguiu pressionar a saída de bola, prejudicando o jogo colombiano. Além da marcação alta, outra característica da Copa das Confederações apareceu: o gol no início. Aos seis minutos, Thiago Silva completou escanteio de Neymar e, de coxa, abriu o placar.

A Colômbia tentou equilibrar o jogo, mas esbarrava na forte marcação no craque James Rodríguez e na fraca exibição de Cuadrado, por isso, Júlio César não era incomodado. A dupla de zaga também tinha responsabilidade nisso, pois impediam as chegadas na área e também bloqueavam os chutes, quando os cafeteros conseguiam finalizar. No outro lado do campo, Hulk, mais uma vez, muito ativo, assustava o goleiro Ospina, porém o segundo gol não vinha.

Vendo o adversário controlando o jogo, Pékerman mexeu: sacou Ibarbo e colocou Adrián Ramos, com mais liberdade para ser atacante. O argentino formou um 4-2-2-2, em que o novo jogador do Dortmund tinha espaço para flutuar atrás de Teó Gutiérrez. Com a mexida, os cafeteros passaram a dominar o jogo, a queda da atuação do meio-campo verde e amarelo também colaborou com a mudança no perfil da partida. Mas, como os números mostram, a pontaria não foi o forte da Colômbia na partida. De onze finalizações, apenas uma foi no alvo, desempenho fraco.

No pior momento da partida, o Brasil conseguiu o segundo gol. Em outra bola parada, David Luiz finalmente conseguiu o primeiro dele de falta com a camisa verde e amarela. Apesar do 2 a 0, o craque da Copa do Mundo, James Rodríguez seguiu tentando e, em um dos raros momentos de liberdade, conseguiu descobrir Bacca (ótimo nove, subutilizado no Mundial) livre dentro da área. Júlio César cometeu o pênalti e, na cobrança, o dez cafetero fez o sexto gol dele na competição (artilheiro). Teoricamente, haveria tempo para a virada, porém, o Brasil passou a dominar o jogo e esfriou o ímpeto colombiano.

O 2 a 1 proporcionou mais uma grande cena do Mundial 2014. Com o apito final, James Rodríguez desabou a chorar, mas não ficou desamparado. Em pouco tempo, os brasileiros Daniel Alves, Marcelo e, principalmente, David Luiz consolaram o dez rival. Na entrevista pós-jogo, o jogador do Monaco, aos prantos, afirmou: “chorei, pois sei que deixamos tudo em campo, mas não foi possível”. Nesta tarde e noite, seria difícil vencer o Brasil, que fez a melhor partida na Copa do Mundo.  

A grande ausência

Neymar deixa o campo chorando, ali já dava para imaginar a gravidade da lesão, que, ao final, afastou o craque da Copa do Mundo (Getty Images)

A alegria ao final do jogo se transformou em temor. Primeiro, durante a partida, o capitão Thiago Silva levou o segundo amarelo, em lance bobo, e está fora do jogo contra a Alemanha. Dentro do elenco brasileiro, Dante parece bem capacitado para substituir o camisa três, apesar de não ser fácil entrar no lugar do melhor zagueiro do mundo. Mas a diferença de nível entre o titular e o reserva não é tão grande como a do outro desfalque verde e amarelo.

Quase no final da partida, em lance no campo defensivo, Neymar tomou uma joelhada nas costas. Zuniga chegou muito duro, em jogada totalmente desnecessária. Após o golpe, o dez brasileiro caiu no chão e não se levantou mais. O árbitro não fez nada, nem cartão o lateral colombiano levou. Ney saiu de maca das quatro linhas e chorando muito. Aos poucos, as notícias foram chegando e a tensão atingindo níveis altos.

Do ambulatório do Arena Castelão, Neymar foi para uma clínica particular e, neste local, foi constada uma lesão séria, em uma vértebra da coluna. Desta forma, além de ficar fora da semifinal, como Felipão imaginou na coletiva pós-jogo, o camisa dez não jogará mais a Copa do Mundo 2014. O grande sonho do garoto de disputar e vencer o Mundial no próprio país, quando estava tão perto, acabou.

Até terça-feira, Luiz Felipe Scolari e toda a comissão técnica vão trabalhar muito para substituir a grande referência técnica verde e amarela. Se no talento Neymar é insubstituível no Brasil, vale destacar que, na fase final da Copa, o camisa dez não brilhou. Por isso, os canarinhos conseguiram não depender tanto do craque, que teve atuações mais apagadas, mostrando que a seleção não é apenas o principal jogador. Portanto, há vida sem Ney.

A adversária

 Palmas para Hummels, muito bem na defesa e o autor do gol decisivo (Martin Rose/Getty Images)

Como previsto, o Maracanã viu um jogo muito equilibrado, entre Alemanha e França. A Nationalmannschaft trouxe novidades para a partida: Lahm na lateral e Klose (abaixo dos demais fisicamente) como centroavante. Assim, Löw manteve o 4-3-3, mas teve o time mais próximo daquele que vinha sendo trabalhado durante todo o período entre copas do mundo, principalmente, quando observamos a forma de jogar. Por isso, a aposta forte é na manutenção da trinca de meias, com Khedira, Schweinsteiger e Kroos, tendo Özil e Müller abertos. A mudança que deve ocorrer é a provável escalação Schürrle, deixando Klose como opção para o segundo tempo.

Sobre o jogo, o Rio de Janeiro viu a vitória, por 1 a 0, com o gol do zagueiro Hummels, que, além de marcar de cabeça, conseguiu fazer um ótimo trabalho defensivo. Esta exigência ao jogador do Dortmund foi reflexo da produção dos franceses, que não foi tão grande como em outras partidas, porém capaz de assustar os alemães. Neuer foi exigido várias vezes e fez boas defesas, as que mais chamaram a atenção foram realizadas com uma mão só.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Copa do Mundo – Dia 21

Mais um dia sem Copa e, desta vez, serão dois. Por isso, aproveitarei esta quarta-feira para pensar no jogo do Brasil, na próxima fase. Partida que promete equilíbrio, afinal, os verde e amarelos não atingiram seu ápice, enquanto a Colômbia é tida como uma das principais seleções do Mundial. 

Brasil 

 Apesar da atuação ruim, o Brasil chegou às quartas de final e, depois da disputa de pênaltis, sobrou emoção (Quinn Rooney/Getty Images)

Sem jogar bem, o Brasil chegou à esta fase, baseado em bons desempenhos individuais de Júlio César (nos pênaltis, contra o Chile), David Luiz, Thiago Silva, Luiz Gustavo (suspenso, fará para marcar os adversários) e, principalmente, Neymar. Luiz Felipe Scolari opta pelo 4-2-3-1 e fornece muita liberdade de movimentação ao trio de meias, que, além do craque da seleção, tem Hulk e Oscar pelos flancos. Porém, se os três trocam muito de posição durante o jogo, a bola não tem chegado ao trio. Os Sambas Boys têm um problema crônico: a dificuldade na saída pelo chão e, por isso, o uso excessivo dos lançamentos longos pelos zagueiros e Luiz Gustavo. 

O problema, que é evidente e persiste pelos quatros jogos, ainda não teve solução. Para vencer a Colômbia, o treinador terá que trazer uma resposta a isso. Os laterais, tidos como pontos fortes dos canarinhos, não vêm bem e uma evolução do desempenho da dupla (seja Daniel e Marcelo ou Maicon e Marcelo) será importante para dar alternativas a esta saída pelo chão. Mas o ponto central para a evolução, se encontra na volância. Sem Luiz Gustavo, o Brasil deve ter Fernandinho e Paulinho, ambos já foram titulares como 2° volantes, mas nenhum dos dois conseguir facilitar o início das jogadas do meio. Jogar sem um jogador posicional, neste setor, pode ser a solução circunstancial contra a Colômbia. Mas contar com os laterais em melhor nível e Oscar participando, como fez contra a Croácia, na estreia, parece ser o mais importante. 

Colômbia 

 Cuadrado e James Rodríguez: o Brasil e qualquer um que enfrentar a Colômbia deverá prestar atenção na dupla (Adam Pretty/Getty Images)

Antes da Copa, não havia quem não falasse da força cafetera, mas, com a lesão de Falcao García, as dúvidas entraram em campo. No Mundial, a ausência da principal estrela tem sido esquecida, James Rodríguez e Cuadrado tem conseguido suprir esta falta, criando e marcando os gols para a Colômbia. Os bons desempenhos da equipe têm muito do trabalho do técnico, o argentino José Perkerman. Durante a caminhada para a Copa do Mundo, ora com dois atacantes, ora com o 4-2-3-1 ou 4-1-4-1, os Cafeteros apenas mostraram força. No Brasil, o comandante fixou a equipe no esquema da moda: Teó Gutiérrez é o nove; mais atrás, estão Cuadrado à direita, James Rodríguez no centro e Ibarbo à esquerda; e, na volância, dois jogadores mais presos, Carlos Sánchez e Abel Aguilar. 

Com a nova configuração do meio para frente, a Colômbia tem conseguido ter uma defesa relativamente segura. Nisso, o goleiro Ospina tem bastante importância, pois é um dos bons nomes da posição, no Mundial, e a dupla de zaga Yepes e Zapata também vai muito bem. Mas o destaque é mesmo o ataque e tem relação com o esquema também. Com muitos jogadores dispostos a trabalhar para as estrelas, James e Cuadrado têm total liberdade para agir. Ambos aproveitam bem isso e tem números impressionantes. O camisa dez é o craque e artilheiro da Copa e tem cinco gols e duas assistências. O ponta-direita é o líder em passes decisivos, com quatro e ainda balançou as redes uma vez. Porém, os cafeteros também tem problemas no ataque, Pekerman tem insistido em Teó Gutiérrez, que marcou apenas uma vez, enquanto, no banco, está Jackson Martínez, que joga em nível mais alto e já tem dois gols na Copa. Em um jogo, que promete tanto equilíbrio, tem um centroavante um pouco pior pode ser a diferença entre seguir na competição e voltar para casa.

sábado, 28 de junho de 2014

Copa do Mundo – Dia 17

Sobreviveu 

 Júlio César pegou dois pênaltis e se transformou no heroi brasileiro das oitavas de final (Ian Walton/Getty Images)

O que todos esperavam ocorreu. O Brasil mudou os onze iniciais e Paulinho foi para o banco, dando lugar para Fernandinho no meio-campo. Parecia o caminho ideal para vencer a marcação pressão do 3-1-4-2 chileno. Mas, na prática, não foi assim. O londrinense jogou abaixo, Oscar e os laterais não colaboraram com a saída de bola e Fred ou Jô não foram o centroavante necessário para o bom funcionamento do 4-2-3-1 de Luiz Felipe Scolari. 

O Brasil não tinha jogo, a bola ficava com o Chile (sem chegar ao gol defendido por Júlio César) e, eventualmente, os verde e amarelos conseguiam algo no contra-ataque. Mas faltava a finalização. Neymar estava apagado e, às vezes, trocava o chute por continuar conduzindo a bola. Se os canarinhos não conseguiram superar a pressão roja, outro ponto muito falado durante a semana ocorreu. Na bola aérea, a maior altura brasileira fez diferença. No primeiro poste, Thiago ganhou de dois rivais e, no segundo pau, David Luiz fez o primeiro do jogo e o primeiro dele pela seleção.

Como dito acima, o Brasil não superou a pressão adversária. Em lance assim, o Chile empatou em erro conjunto de Marcelo e Hulk. Vargas recuperou e tocou para Alexis Sánchez dominar e marcar. O 1 a 1 foi capaz de confirmar o melhor momento do jogo chileno, mas seguia faltando a chegada e, através da individualidade, o Brasil conseguia ser mais perigoso. No segundo tempo, o domínio da Roja aumentou e, defensivamente, liderada pelo baleado Medel, não havia sofrimento.

Felipão fez mexidas, mas nenhuma delas deu resultado e, se não fosse Júlio César, o Brasil teria sido eliminado no tempo normal. Neste momento, o comentarista da ESPN, Paulo Vinicius Coelho cunhou a frase que definiu a partida: “O Brasil perdeu o jogo, agora é ver se vai ganhar a vaga”. Se faltavam jogadas e inspiração, Hulk, que havia falhado no gol de empate, brigava muito e, desta forma, quase conseguiu decidir o jogo para os Samba Boys, algo que parecia improvável.

Fisicamente, os canarinhos se mostravam melhores, portanto, a prorrogação poderia trazer coisas boas. Mais uma vez, a teoria não se comprovou na prática. Neymar não conseguia fazer a jogada de desequilíbrio. A partida, facilmente confundida com um teste para cardíacos, parecia fadada a chegar na prorrogação. Faltou pouquíssimo para não chegar. Pinilla virou uma bola na entrada da área e acertou o travessão.

Apesar de não jogar bem, o Brasil havia conseguido sobreviver aos 120 minutos de bola rolando, seria capaz de resistir às cobranças de pênaltis? O criticado e maior ponto de interrogação da seleção, Júlio César chorou antes da disputa, mostrando a emotividade característica. Porém, na hora que tinha que aparecer, mostrando frieza, o camisa 12 esteve lá. O goleiro brasileiro pegou duas cobranças e contou com a trave, para liderar a vitória brasileira por 3 a 2. Ao final, novamente, teve choro, mas, desta vez, as lágrimas expressavam alívio e alegria.

Sem alegria e sem bom futebol, os Samba Boys passaram às quartas de final, deixando para trás um Chile fortíssimo e muito aplicado, fruto de um trabalho espetacular de Jorge Sampaoli. A partida mostrou os problemas brasileiros, como a reincidência da falta de saída por baixo, os problemas dos centroavantes convocados e Daniel Alves sempre deixando espaço para os rivais jogarem. Além de superar estes desafios, para as quartas de final, o Brasil precisará conseguir jogar bem sem o suspenso Luiz Gustavo, um dos melhores jogadores da seleção, no Mundial.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Copa do Mundo – Dia 16

Intensidade e altura

Neymar é um dos artilheiros da Copa, com quatro gols, e vai liderando o Brasil (Matthew Lewis/Getty Images)

Escrever mais sobre a melhor exibição do Brasil, na Copa do Mundo, não é necessário, por isso, ousarei prever o próximo passo da seleção. O confronto contra o Chile promete ser muito interessante. Apesar deste Mundial ser tão bom exatamente por ser imprevisível, não há como imaginar uma partida fácil para nenhuma das duas equipes e, sim, um duelo aberto recheado de aspectos muito interessantes. 

O Chile se caracterizou nesta Copa por estar conseguindo se adaptar ao estilo de jogo, que o adversário lhe propõe. Na estreia, a adversária foi a Austrália, uma equipe mais defensiva. Portanto, Sampaoli jogou no 4-3-1-2, com Valdívia muitas vezes se unindo à dupla de atacantes, composta pelos móveis Alexis Sánchez e Eduardo Vargas. Além disso, o trio de meias tem Aránguiz e Vidal buscando mais o ataque, enquanto, Marcelo Diáz (o segundo jogador que mais correu no Mundial, 36,7 km) faz o balanço defensivo, quase funcionando como terceiro zagueiro. A formação do trio atrás dá liberdade aos dois laterais, Isla à direita e Mena à esquerda. 

Ter estreado no Mundial com um esquema, que não é o habitual da Roja, mostra como Sampaoli tem o grupo na mão. Para bater a Espanha e também contra a Holanda, o sistema com três zagueiros de início voltou a imperar – deve ser a escolha para enfrentar o Brasil. O 3-1-4-2 faz parte do repertório chileno há muito tempo, pois Marcelo Bielsa usava o esquema como variação do seu preferido 3-3-1-3. Além do trio atrás, o Chile de Sampaoli tem outros elementos clássicos do jogo de El Loco: a pressão na saída de bola adversária, troca de passes (top cinco no ranking de passes completados) e estilo ofensivo.

 Chile - Football tactics and formations

Não por acaso, a primeira característica que citei foi a pressão na saída de bola. Pois esta alternativa também é uma das principais da equipe brasileira e, frente aos camaroneses, foi responsável por dois gols verde e amarelos. Portanto, devemos ver um duelo insano na saída de bola. Até aqui, quem está vencendo, é o Chile, que, com os laterais e boa participação dos meias, tem conseguido sucesso na proposição de jogo. Os Samba Boys sofrem neste quesito e, contra a Roja, devem sofrer ainda mais, afinal, o adversário tem a marcação pressão como ponto forte.

O problema brasileiro na saída de bola vem desde o primeiro jogo da Copa e até dos amistosos. As fracas atuações de Paulinho e dos laterais, que são fundamentais para a construção dos ataques desde o campo defensivo, são os pontos centrais para o entendimento do problema crônico verde e amarelo. As saídas têm sido realizadas ou em lançamentos dos zagueiros e Luiz Gustavo ou em contribuições inconstantes de Neymar (o craque tem aparecido melhor no ataque), Oscar e Hulk, o que é pouco. 

 Fernandinho entrou contra Camarões e mostrou um nível de futebol altissímo, o que deverá fazê-lo titular contra o Chile (Buda Mendes/Getty Images)

Olhando o perfil do rival e a ótima participação de Fernandinho, contra Camarões, a mudança do 2° volante se mostra como fundamental e alternativa mais clara para enfrentar os chilenos. No meio tempo em que ficou em campo, o camisa cinco se mostrou à vontade para participar desta saída de bola. Talvez, com a entrada dele, não só a saída pelo centro melhore e, pelos lados, também evolua, com melhor inclusão de Daniel Alves e Marcelo nesta dinâmica. 

A falta de estatura chilena, compensada por muita velocidade, não traz orgulho e causa preocupação, afinal é a menor altura média da Copa (1,76m). Antes do Mundial, um dos três zagueiros, Jara, de 1,78m, explicou a questão: “Esse assunto já é velho, já foi falado demais. Não temos defensores tão altos como antes, é verdade. Mas lidamos bem com isto”. Este é um caminho que pode ser explorado pelos brasileiros, pois os Samba Boys têm jogadores altos e uma média bem superior aos chilenos (1,81m). 

Como dito por Jara, a falta de altura é um problema maior na defesa. Afinal, além do jogador de 1,78m estão Silva, de 1,78m e Medel, 1,72m. Outro nome que, por muitas vezes, compõe a defesa é o 1° volante Marcelo Diáz, de 1,67m. Os verde e amarelos deverão ter dentro da área o centroavante Fred, que tem 1,85m, proporcionando uma clara vantagem para o jogo aéreo do nove brasileiro, que tem os cabeceios como uma das armas para marcar. Nos escanteios e faltas laterais, normalmente, bem cobrados por Neymar, os canarinhos devem ter Luiz Gustavo (1,87m), David Luiz (1,89m) e Thiago Silva (1,83m) dentro da área. Mesmo que a defesa roja receba apoio de jogadores mais ofensivos, entre os onze iniciais, apenas Vidal alcança a marca do 1,80m, portanto, a superioridade de altura seguiria. 

Portanto, explorar a bola alta pode ser uma saída bem interessante para o Brasil. Mas não há como fazer dela a única alternativa, pois, nos últimos jogos, como já dito acima, a seleção sofreu bastante com a falta de saída de bola pelo chão. Por isso, mesmo jogando contra La Roja, que dificultará o início das jogadas, os Samba Boys devem alternar o jogo aéreo e longo com os passes curtos e rasteiros. Para isso ocorrer, a entrada de Fernandinho como titular parece quase obrigatória, pois, em 45 minutos, contra Camarões, o londrinense trouxe àquilo que é cobrado. Porém, além disso, Oscar terá que participar mais dessa saída de bola e contar com apoio dos laterais neste trabalho, conseguindo dar a alternância ao jogo verde e amarelo, fundamental para a vitória contra a boa seleção chilena.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Copa do Mundo – Dia 13

Uma despedida digna 

David Villa fechou a trajetória na Roja com esta letra e atuação memorável na Arena da Baixada (Jeff Gross/Getty Images)

Os curitibanos sofreram com o sorteio dos jogos para a cidade, porém havia grande expectativa para a partida Espanha e Austrália, que teria os campeões do mundo como protagonistas. Porém, La Roja e os Socceroos chegaram à última rodada eliminados. De qualquer forma, a Arena recebeu um público bem interessante. Mas, apesar do interesse ser mesmo pelos espanhóis, a torcida optou por vaiá-los e torcer contra. 

Como doente por futebol que sou, estava muito ansioso para ver os últimos passos de Xabi Alonso, Xavi e Villa e, provavelmente, de Casillas e Pepe Reina. Se pensarmos apenas em mundiais, com certeza, somaríamos aos cinco, Fernando Torres. Portanto, grande parte da geração supercampeã e alguns protagonistas. Logo que a Furia chegou e foi visitar o gramado fui à beira do campo e pude gritar para alguns jogadores, sempre gritando três vezes até receber o retorno. O primeiro a me cumprimentar foi Javi (Martínez), depois foi a vez de Santi (Cazorla) e, por fim, um dos meus preferidos, Xabi (Alonso), sempre procurado quando o jogo estava apertado.

Apesar de vaias, a Espanha foi para o jogo disposta a deixar uma boa impressão. No 4-3-3, que, com a avanços de Iniesta, se tornava um 4-2-3-1, La Roja controlou as ações da partida. Porém, não começou bem, era óbvio o nervosismo da equipe, pois eles se obrigavam a vencer. Aos poucos, o domínio foi sendo conquistado, Cazorla, Xabi Alonso e Don Andrés passaram a comandar o meio-campo e, pela ponta esquerda, Villa e Jordi Alba colocavam McGowan louco. 

Mas, para abrir o jogo, nada pode ser melhor que Iniesta. O camisa seis fez passe no “costado da zaga” e descobriu Juanfran livre. O lateral-direito, que estava em ótima tarde, foi ao fundo e, no momento certo, cruzou rasteiro para trás. Villa chegou e guardou de letra. O 1 a 0 aumentou o controle da partida para os espanhóis. Os socceroos, apesar da boa torcida, não tiveram forças para reagir. Com Don Andrés e Xabi Alonso dominando totalmente as ações pelo centro e com o restante do grupo se mexendo muito e sempre dando opções de passes, não havia o que temer. A Espanha faria mais gols.

Antes de anotar mais, o que mais fez isso com a camisa roja se despediu. Aos 12 do 2°T, o maior artilheiro da história da seleção espanhola, David Villa, com 59 gols em 97 partidas, deu lugar a Mata. No caminho para sair de campo, El Guaje demonstrou emoção e foi cumprimentado/consolado por vários companheiros. No banco, não foi diferente, abaixou a cabeça e recebeu o carinho por membros da equipe da Roja

Se Villa estava provavelmente se despedindo, Iniesta mostrou que ainda tem muito a dar para a seleção. Foi dele a assistência primorosa para Torres marcar o segundo. Este foi um dos 80 passes completados pelo camisa seis, o maior passador da partida, que terminou com um índice de 88% de acertos. Para o final, ficou o gol de Mata, após outra boa assistência, desta vez, de Fàbregas. 

Mesmo com o 3 a 0, os espanhóis não saíram felizes e não fizeram nenhuma festa ou agradecimento especial ao público curitibano. Em seu Facebook, Iniesta publicou um texto, que justifica isso: “A decepção por voltar tão cedo para casa é muito grande. Tínhamos muita ilusão de poder fazer um bom Mundial e não foi possível. Lhes peço desculpas e lhes asseguro que trabalharemos para voltar a colocar a seleção onde ela merece”. A Furia precisará muito de Don para voltar ao topo, o camisa seis deverá ser um dos líderes da nova geração, que transborda em qualidade.

Para a Austrália, a vinda ao Brasil valeu pelas boas exibições nas duas primeiras partidas, apesar das derrotas. Claro, o carisma dos australianos também contou. Ao final do jogo, Bresciano, que havia vindo bem do banco, pegou duas das bolas da partida, se encaminhou ao setor onde estavam os familiares dos australianos e entregou uma delas a um amigo/parente. A segunda brazuca foi rifada para a galera. Além disso, alguns dos australianos, fizeram questão de dar a volta em todo o campo, para aplaudir a torcida.

Podia até não valer nada, mas foi espetacular.