quarta-feira, 3 de julho de 2013

Balanço da Copa das Confederações 2013


Fora de campo, as manifestações chamaram a atenção do Brasil e do mundo durante a Copa das Confederações. Dentro das quatro linhas, a competição mostrou um futebol de nível, craques como protagonistas, histórias curiosas e, principalmente, a esperança verde e amarela revigorada após o recital na final frente à Espanha

Amadurecendo, com carrossel tático

A Itália não repetiu os 11 iniciais em nenhum jogo da Copa das Confederações 2013 (Ap Photo/Antonio Calanni)

Após o título na Copa do Mundo de 2006, a Itália iniciou uma reformulação ainda com Marcello Lippi. Os primeiros movimentos de renovação foram tímidos, mas depois da eliminação, na primeira fase do Mundial da África do Sul, o sinal verde para uma mudança mais drástica foi aceso. Para isso, a aposta foi no jovem técnico Cesare Prandelli.

Na Eurocopa 2012, os italianos já mostraram uma recuperação, utilizando da mistura entre jogadores mais jovens (Balotelli, Chiellini e Marchisio) e mais experientes (Pirlo, Buffon). Com esta receita veio o vice-campeonato Europeu. Neste ano, no Brasil, a Squadra Azzurra apostou em estratégia semelhante e trouxe vários vice-campeões da Euro 2012 para a Copa das Confederações.

O que chamou a atenção na disputa da competição no Brasil mais uma vez foi a facilidade do grupo em se adaptar. O esquema tático inicial foi o 4-3-2-1, com variação para o 4-3-1-2. Com esta forma de jogar, as duas estrelas do time, Balotelli e Pirlo, tiveram liberdade para exercer todo o futebol que têm capacidade de apresentar. O centroavante jogava livre na frente, sem tantas obrigações de marcação. Enquanto o camisa 21 azzurro era o jogador mais recuado para dar qualidade à saída de bola italiana e tinha ao seu lado De Rossi e Montolivo, que davam a segurança à defesa da Squadra Azzurra.

Com esta forma de jogar, a Itália venceu o México com alguma facilidade e teve bastante dificuldade para bater o Japão por 4 a 3. No jogo contra os asiáticos, o 4-3-2-1 foi mantido, mas as peças foram trocadas. A Itália mostrava capacidade de se adaptar aos adversários e um elenco forte, com jogadores capazes de acompanhar as ideias de Cesare Prandelli. Frente ao Brasil, os azzurri mudaram taticamente mais uma vez e optaram pelo 4-2-3-1. Como todos sabem, os “canarinhos” fizeram uma de suas melhores atuações no torneio, porém a Itália fez jogo corajoso e teve chances de sair com um resultado melhor do que a derrota por 4 a 2.

Na fase final a história de sempre se repetiu e a Itália cresceu na reta decisiva do torneio. Primeiro, a semifinal contra a Espanha. A Squadra Azzurra optou por um esquema com três zagueiros, o 3-4-2-1. Com a dobradinha de Candreva e Maggio pela direita, Jordi Alba pouco conseguiu jogar. Do outro lado, sem a mesma eficácia, jogaram Giaccherini e Marchisio. As dobradinhas pelos extremos deram resultado e a Itália foi melhor que a roja durante todo o tempo normal da partida, depois, sofreu com o domínio espanhol na prorrogação. Com Pirlo sem a forma ideal e Balotelli machucado ficou o sentimento que faltou a maior presença dos protagonistas italianos para que o time tivesse mais sorte na semifinal perdida nos pênaltis.

Para conquistar o terceiro lugar, a Itália voltou a utilizar o esquema 4-3-2-1 e, com a grande participação nas bolas paradas de Diamanti, conseguiu a vitória nos pênaltis (com três defesas de Buffon) frente ao Uruguai, após o 2 a 2 no tempo normal. Na disputa contra a Celeste, os azzurri foram melhores o jogo todo, mas sofreram com a boa atuação de Cavani, que marcou os gols uruguaios.

O terceiro posto no torneio não foi o mais importante para a Itália. Com a grande variação tática apresentada e a boa adaptação dos jogadores às mudanças impostas por Cesare Prandelli. Além disso, Candreva repetiu o bom desempenho que teve com a Lazio na seleção e, agora, se torna mais uma opção bastante interessante para o meio-campo azzurro na Copa de 2014. A classificação italiana para o Mundial no Brasil está bem adiantada e, no grupo B das Eliminatórias Europeias, a Itália está invicta. 


A recuperação charrúa

 Cavani comemora gol contra a Itália, o centroavante cresceu com a Celeste na reta final da Copa das Confederações 2013 (AFP/Daniel Garcia)

O lado derrotado também tem o que comemorar. O Uruguai perdeu as disputadas de terceiro lugar nos Mundiais de 1954, 1970 e 2010 e, na Copa das Confederações, de 1997 e de agora. Porém, a Celeste deixa o Brasil fortalecida. A seleção vizinha veio recheada de dúvidas para a disputa. Com um elenco bastante semelhante ao que disputou a Copa do Mundo de 2010, com muito destaque, a idade chegou e muito daqueles jogadores já não vivem o mesmo momento de três anos atrás. Por conta disso, os charrúas não vinham bem nas Eliminatórias sul-americanas e só conseguiram alcançar o quinto posto na tabela agora. Hoje, disputariam a repescagem contra um país asiático.

Na Copa das Confederações, os uruguaios começaram devagar e viveram uma primeira fase de altos e baixos. Conseguiram a classificação muito em função dos trio de atacantes muito acima da média. Na fase final cresceram e, com eles, a defesa mostrou mais consistência. Contra o Brasil, Cavani se tornou protagonista e a Celeste fez jogo muito equilibrado. Com “El Matador” crescendo nos jogos decisivos (três gols, em duas partidas da fase final), os Charrúas também fizeram bom jogo e acabaram derrotados apenas nos pênaltis.

O crescimento faz o Uruguai acreditar na melhoria de desempenho na Eliminatória e, em uma anteriormente improvável, classificação direta ao Mundial de 2014. O trio formado por Forlán, Cavani e Suárez obriga os charrúas a sonharem com isso. Após a conquista do quarto lugar, o centroavante do Napoli deu uma declaração nesse tom: “Acho que podemos sair do Brasil de cabeça em pé. Tivemos azar contra o Brasil e contra a Itália, mas é claro que eles tiveram méritos também, digo que eles tiveram algo extra, que nós não soubemos ter. Fomos melhores em parte do jogo, mas ele acabou indo para os pênaltis. Essa experiência vai nos ajudar a buscar uma vaga nas Eliminatórias”.

Os protagonistas das grandes histórias

Festa dos taitianos ao final da passagem pelo Brasil, ficou o carisma da seleção mais fraca do torneio (Ag. Reuters)

A grande surpresa da competição foi a participação do Taiti. A seleção da Oceania veio ao Brasil com apenas um jogador profissional (Marama Vahirua), perdeu as três partidas que disputou, sofreu 24 gols e marcou apenas uma vez. O autor da proeza foi Jonathan Tehau, na derrota por 6 a 1 para a Nigéria.

Mas o que ficou da seleção da Oceania foi mesmo o carisma e o carinho que tiveram pela torcida brasileira. Ao final da participação na Copa das Confederações, ainda em campo após a derrota por 8 a 0 frente ao Uruguai, todos os taitianos portavam bandeiras brasileiras e apresentaram uma faixa com o agradecimento “Obrigado, Brasil”. Ao final do mesmo jogo, na coletiva de despedida, o técnico Edy Etaeta fez um gesto impensável no futebol atual, onde, cada vez mais, existem barreiras entre os protagonistas dos espetáculos e os jornalistas: cumprimentou cada um dos profissionais da mídia presentes na sala de imprensa.

Ao longo da estadia no Brasil os jogadores do Taiti entregaram a todos os tradicionais colares do país e esbanjaram simpatia. Mas, além disso, a grande história ocorreu no encontro com a melhor seleção do mundo, a Espanha. Após a derrota por 10 a 0, um dos membros da delegação, que seria o 24° jogador da seleção taitiana, Efraín Arañeda tinha um único objetivo: encontrar um antigo conhecido, Fernando Torres. 

O chileno naturalizado taitiano foi o guia do centroavante da Espanha durante a lua de mel do camisa nove em 2007. Após a partida o encontro ocorreu e mais da história, você pode ler a análise do caso na Trivela realizada pelo amigo Felipe Portes.

Por isso, para a infelicidade de muitos, os grandes personagens da Copa das Confederações não conseguiram se classificar para o Mundial no ano que vem.
 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Mostrou quem manda


 Thiago Silva levanta a taça da Copa das Confederações 2013: o Brasil teve a sua melhor atuação na decisão frente à Espanha (Daniel Ramalho/Terra)

No Maracanã, o Brasil aos gritos de “O campeão voltou” jogou como há muito tempo não atuava e massacrou a Espanha, atual campeã mundial e bicampeã europeia. A torcida fez a atmosfera do estádio valer, empurrou os “canarinhos” do começo ao fim e vaiou enquanto foi necessário o toque de bola da furia.

Desde o princípio a seleção brasileira mostrou como iria combater a forma espanhola de jogar: pressão na saída de bola roja. A ausência do facilitador do início da construção das jogadas espanholas, Xabi Alonso ajudou no sucesso da estratégia de Luiz Felipe Scolari. A Espanha acostumada a exercer a marcação nos adversários não soube lidar com o jogo aplicado pelo Brasil. O primeiro gol verde e amarelo saiu antes dos dois minutos de jogo. David Luiz, um monstro na final, fez lançamento do campo de defesa para ponta-direita. Hulk cruzou para a área e, depois de muita confusão, a redonda sobrou para Fred, que, mesmo deitado, conseguiu marcar o 1 a 0.

 Fred aponta para a torcida, mas poderia estar apontando o caminho do gol, pois esta trajetória ele conhece muito bem (Ag. Reuters)
O gol parece ter mostrado para os brasileiros que o antídoto para vencer a fúria estava ali. Por isso, no início da partida, a estratégia seguiu funcionando e, logo depois do 1 a 0, os “canarinhos” quase marcaram o segundo em finalização de Oscar dentro da área. O volume de jogo verde e amarelo manteve a Espanha com muitas dificuldades nos primeiros 20 minutos. La Roja só conseguiu chutar com Iniesta, em jogada individual. O domínio brasileiro impressionava e Fred ainda teve chance valiosa frente à Casillas, que realizou defesa importantíssima.

Neymar foi eleito o Bola de Ouro da Copa das Confederações 2013 e foi muito merecido, o dez brasileiro jogou muito (Laurence Griffiths/Getty Images)

Paulinho e, principalmente, Luiz Gustavo - partida perfeita hoje -  não permitiam o jogo de Xavi e Iniesta. Mata flutuando entre a ponta-esquerda e o centro também não jogava. Thiago Silva e David Luiz faziam partida esplendorosa e colaboraram para que o ataque espanhol não funcionasse. O camisa quatro chegou a salvar uma bola em cima da linha, que confirmou a sensação de que o jogo terminaria com vitória brasileira. O excelente primeiro tempo ainda reservou um gol para o bola de ouro do torneio, Neymar fez com passe de Oscar. O camisa 11, até então apagado, foi mais um que contribuiu bastante com a vitória brasileira.

Na volta do intervalo, Del Bosque tentou resolver o problema da lateral-direita, tirando o Arbeloa, em péssima partida, e colocando Azpilicueta. Porém, a troca não adiantou, mostrando que além da falta de um centroavante do nível do restante do elenco, a Espanha não tem um lateral-direito para fazer parte dos 11 iniciais. Tanto não resolveu que, com um minuto do segundo tempo, mais um gol no lado esquerdo do ataque verde e amarelo. Fred recebeu de Hulk e marcou o quinto dele na Copa das Confederações.

 David Luiz: um dos símbolos da seleção brasileira, nunca escondeu o prazer de vestir a camisa verde e amarela (Getty Images)

No placar, 3 a 0 e, como a Espanha na Eurocopa de 2012, a melhor partida da equipe campeã ficou para o final. Os espanhóis sofreram com isso, mas tiveram chances boas no segundo tempo. Júlio César fez uma defesa importante em chute de Villa e viu Sergio Ramos desperdiçar um pênalti (porque ele como cobrador?). O goleiro sai da disputa com mais força do que entrou. Mesmo com as oportunidades da roja, a intensidade do jogo brasileiro foi reduzida apenas por poucos minutos. Por isso, Neymar conseguiu a expulsão de um futuro companheiro, Pique e o Brasil ainda criou boas chances.

O jogo ficou no 3 a 0, mas a sensação de dever cumprido era clara nos jogadores brasileiros. O abatimento espanhol também foi visível. A festa foi maravilhosa e a torcida do Maracanã deu aula de como deve ser o comportamento na Copa do Mundo. O apoio que veio das cadeiras fez a diferença e, sem dúvidas, ajudou no bom desempenho dentro das quatro linhas. Tanto que, nos dois primeiro gols, os jogadores fizeram questão de ir para o meio da torcida.

Luiz Gustavo chegou devagar na seleção e tomou conta da volância (Rafael Ribeiro/CBF)

A Copa das Confederações deixou claro que a seleção brasileira ainda está em formação, tem um craque e viveu altos e baixos na disputa, mas provou ser capaz de muita coisa. O grande momento na final não apaga a necessidade de ajustes e de melhorias em alguns pontos. A evolução ao longo da competição apresentou uma coisa bastante importante na decisão frente à Espanha, pois os laterais souberam dosar os avanços e não deixaram os espaços nos corredores para os jogadores de lado de campo da furia – Hulk colaborou muito com Daniel Alves na marcação. Além disso, a falada marcação pressão, que os “canarinhos” tentaram exercer durante toda a Copa das Confederações, teve o auge contra a roja.

A lateral-direita talvez seja o ponto de maior preocupação para os próximos anos. O titular verde e amarelo, Daniel Alves não vive o melhor momento e, no banco, estava um volante de origem, Jean. Por isso, abrir os olhos para outras opções deve ser feito. Os dois nomes que se destacam entre as demais alternativas são Mário Fernandes, do CSKA, e Rafael, do Manchester United. Testá-los pode fazer a diferença na formação de elenco da Copa de 2014, que deve ser 80% formado por esses jogadores que venceram os cinco jogos disputados na Copa das Confederações 2013. Os primeiros passos para um título mundial em casa foram dados, mas é necessário continuar evoluindo. Eu acredito que o caminho seguirá sendo seguido com sucesso.